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id da página: 11074 Weil Pai Nosso Tempo Simone Weil

Weil Pai Nosso Tempo


Os três pedidos que seguem se referem às três partes do tempo mais diretamente e em uma outra ordem, presente, passado, futuro.

Ton arton hemon ton epiousion dos hemin semeron.

O Cristo é nosso pão. Nós só podemos pedi-lo para agora. Pois ele está sempre lá, na porta da nossa alma, que quer entrar, mas ele não viola o consentimento. Se nós consentimos que ele entre, ele entra; assim que nós não queremos mais, ele se vai imediatamente. Nós não podemos ligar hoje nossa vontade de amanhã, fazer hoje um pacto com ele para que amanhã ele esteja em nós mesmo contra a nossa vontade. Nosso consentimento à sua presença é a mesma coisa que sua presença. O consentimento é um ato, ele não pode ser senão atual. Não nos foi dada uma vontade que possa se aplicar ao futuro. Tudo o que não é eficaz na nossa vontade é imaginário. A parte eficaz da vontade é eficaz imediatamente, sua eficácia não é distinta dela mesma. A parte eficaz da vontade não é o esforço, que é voltado para o futuro. É o consentimento, o sim do casamento. Um sim pronunciado no instante presente para o instante presente, mas pronunciado como uma palavra eterna, pois é o consentimento à união do Cristo com a parte eterna da nossa alma.

Nós precisamos de pão: Nós somos seres que tiramos continuamente nossa energia de fora, pois à medida que a recebemos nós a esgotamos nos nossos esforços. Se a nossa energia não é diariamente renovada, nós nos tornamos sem força e incapazes de movimento. Fora da comida propriamente dita, no sentido literal da palavra, todos os estimulantes são para nós fontes de energia. O dinheiro, o avanço, a consideração, as condecorações, a celebridade, o poder, os seres amados, tudo o que coloca em nós a capacidade de agir é como pão. Se um desses apegos penetra suficientemente profundamente em nós, até as raízes vitais da nossa existência carnal, a privação pode nos quebrar e até nos fazer morrer. A isso se chama morrer de tristeza. É como morrer de fome. Todos esses objetos de apego constituem, com a comida propriamente dita, o pão daqui de baixo. Depende inteiramente das circunstâncias nos concedê-lo ou nos recusá-lo. Nós não devemos pedir nada sobre as circunstâncias, a não ser que elas estejam em conformidade com a vontade de Deus. Nós não devemos pedir o pão daqui de baixo.

Existe uma energia transcendente, cuja fonte está no céu, que flui em nós assim que a desejamos. É realmente uma energia; ela executa ações por intermédio da nossa alma e do nosso corpo.

Nós devemos pedir essa comida. No momento em que a pedimos e pelo próprio fato de a pedirmos, nós sabemos que Deus quer nos dá-la. Nós não devemos suportar ficar um único dia sem ela. Pois quando as energias terrestres, submetidas à necessidade daqui de baixo, alimentam sozinhas os nossos atos, nós só podemos fazer e pensar o mal. “Deus viu que os malefícios do homem se multiplicavam sobre a terra, e que o produto dos pensamentos de seu coração era constantemente, unicamente mau.” A necessidade que nos constrange ao mal governa tudo em nós, exceto a energia de cima no momento em que ela entra em nós. Nós não podemos fazer provisões dela.

Kai aphes hemin ta opheilemata hemon os kai hemeis aphekamen tois opheiletais hemon.

No momento de dizer essas palavras, é preciso já ter perdoado todas as dívidas. Não é apenas a reparação das ofensas que pensamos ter sofrido, é também o reconhecimento do bem que pensamos ter feito, e de uma maneira totalmente geral tudo o que nós esperamos da parte dos seres e das coisas, tudo o que nós acreditamos nosso devido, cuja ausência nos daria o sentimento de ter sido frustrados. São todos os direitos que nós acreditamos que o passado nos dá sobre o futuro. Primeiro o direito a uma certa permanência. Quando nós tivemos a fruição de alguma coisa durante muito tempo, nós acreditamos que é nossa, e que o destino nos deve o fato de nos deixar ainda desfrutá-la. Em seguida o direito a uma compensação por cada esforço, qual que seja a natureza do esforço, trabalho, sofrimento ou desejo. Todas as vezes que um esforço saiu de nós e que o equivalente desse esforço não volta para nós sob a forma de um fruto visível, nós temos um sentimento de desequilíbrio, de vazio, que nos faz acreditar que fomos roubados. O esforço de sofrer uma ofensa nos faz esperar o castigo ou as desculpas do ofensor, o esforço de fazer o bem nos faz esperar o reconhecimento da pessoa obrigada; mas são apenas casos particulares de uma lei universal da nossa alma. Todas as vezes que alguma coisa saiu de nós, nós precisamos absolutamente que pelo menos o equivalente volte para nós, e porque precisamos disso nós acreditamos ter o direito a isso. Nossos devedores, são todos os seres, todas as coisas, o universo inteiro. Nós acreditamos ter créditos sobre todas as coisas, em todos os créditos que nós acreditamos possuir, trata-se sempre de um crédito imaginário do passado sobre o futuro. É a ele que é preciso renunciar.

Ter perdoado a nossos devedores, é, ter renunciado em bloco, a todo o passado. Aceitar que o futuro seja ainda virgem e intacto, rigorosamente ligado ao passado por laços que nós ignoramos, mas totalmente livre dos laços que a nossa imaginação acredita lhe impor. Aceitar a possibilidade de que aconteça e em particular que nos aconteça qualquer coisa, e que o dia de amanhã faça de toda a nossa vida passada uma coisa estéril e vã.

Ao renunciar de uma vez a todos os frutos do passado sem exceção, nós podemos pedir a Deus que os nossos pecados passados não tragam para nossa alma seus miseráveis frutos de mal e de erro. Enquanto nós nos apegamos ao passado, Deus ele mesmo não pode impedir em nós essa horrível frutificação. Nós não podemos nos apegar ao passado sem nos apegarmos aos nossos crimes, pois o que é o mais essencialmente mau em nós nos é desconhecido.

O principal crédito que nós acreditamos ter sobre o universo, é a continuação da nossa personalidade. Esse crédito implica todos os outros. O instinto de conservação nos faz sentir essa continuação como uma necessidade, e nós acreditamos que uma necessidade é um direito. Como o mendigo que dizia a Talleyrand: “Monsieur, eu preciso viver” e a quem Talleyrand respondia: “Eu não vejo a necessidade.” Nossa personalidade depende inteiramente das circunstâncias exteriores, que têm um poder ilimitado para esmagá-la. Mas nós preferiríamos morrer a reconhecê-lo. O equilíbrio do mundo é para nós um curso de circunstâncias tal que a nossa personalidade permanece intacta e parece nos pertencer. Todas as circunstâncias passadas que feriram nossa personalidade nos parecem rupturas de equilíbrio que devem infalivelmente um dia ou outro ser compensadas por fenômenos no sentido contrário. Nós vivemos da espera dessas compensações. A aproximação iminente da morte é horrível sobretudo porque ela nos força a saber que essas compensações não se produzirão.

O perdão das dívidas, é o renascimento à sua própria personalidade. Renunciar a tudo o que eu chamo de eu. Sem nenhuma exceção. Saber que no que eu chamo de eu não há nada, nenhum elemento psicológico, que as circunstâncias exteriores não possam fazer desaparecer. Aceitar isso. Ser feliz que seja assim.

As palavras “que a tua vontade seja cumprida”, se elas são pronunciadas com toda a alma, implicam essa aceitação. É por isso que se pode dizer alguns momentos mais tarde: “Nós perdoamos aos nossos devedores.”

O perdão das dívidas, é a pobreza espiritual, a nudez espiritual, a morte. Se nós aceitamos completamente a morte, nós podemos pedir a Deus para nos fazer reviver puros do mal que está em nós. Pois pedir a ele para perdoar nossas dívidas, é pedir a ele para apagar o mal que está em nós. O perdão, é a purificação. O mal que está em nós e que lá fica, Deus ele mesmo não tem o poder de perdoá-lo. Deus nos perdoou nossas dívidas quando ele nos colocou no estado de perfeição. Até lá Deus nos perdoa nossas dívidas parcialmente, na medida em que nós perdoamos aos nossos devedores.

Kai me eisenegkes hemas eis peirasmon alla rhusai hemas apo tou ponerou.

A única provação para o homem, é ser abandonado a si mesmo no contato com o mal. O nada do homem é então experimentalmente verificado. Embora a alma tenha recebido o pão sobrenatural no momento em que o pediu, sua alegria está misturada com medo porque ela só pôde pedi-lo para o presente. O futuro continua temível. Ela não tem o direito de pedir pão para o dia seguinte, mas ela expressa seu medo sob a forma de súplica. Ela termina por aí. A palavra “Pai” começou a oração, a palavra “mal” a termina. É preciso ir da confiança ao medo. Apenas a confiança dá força suficiente para que o medo não seja uma causa de queda. Depois de ter contemplado o nome, o reino e a vontade de Deus, depois de ter recebido o pão sobrenatural e de ter sido purificada do mal, a alma está pronta para a verdadeira humildade que coroa todas as virtudes. A humildade consiste em saber que neste mundo toda a alma, não apenas o que se chama o eu, em sua totalidade, mas também a parte sobrenatural da alma que é Deus presente nela, está submetida ao tempo e às vicissitudes da mudança. É preciso aceitar absolutamente a possibilidade de que tudo o que é natural em si mesmo seja destruído. Mas é preciso ao mesmo tempo aceitar e repelir a possibilidade de que a parte sobrenatural da alma desapareça. Aceitá-la como um evento que só se produziria em conformidade com a vontade de Deus. Repeli-la como sendo algo de horrível. É preciso ter medo disso; mas que o medo seja como a conclusão da confiança.

Os seis pedidos se correspondem dois a dois. O pão transcendente é a mesma coisa que o nome divino. É o que opera o contato do homem com Deus. O reino de Deus é a mesma coisa que a sua proteção estendida sobre nós contra o mal; proteger é uma função real. O perdão das dívidas a nossos devedores é a mesma coisa que a aceitação total da vontade de Deus. A diferença é que nos três primeiros pedidos a atenção é voltada apenas para Deus. Nos três últimos [acima], a atenção é trazida de volta para si a fim de se forçar a fazer desses pedidos um ato real e não imaginário.

Na primeira metade da oração, começa-se pela aceitação. Depois se permite um desejo. Depois se o corrige voltando à aceitação. Na segunda metade, a ordem é mudada; termina-se pela expressão do desejo. É que o desejo se tornou negativo; ele se expressa como um medo; por conseguinte ele corresponde ao mais alto grau de humildade, o que convém para terminar.

Esta oração contém todos os pedidos possíveis; não se pode conceber uma oração que já não esteja nela contida. Ela é para a oração como o Cristo para a humanidade. É impossível pronunciá-la uma vez, aplicando a cada palavra a plenitude da atenção, sem que uma mudança talvez infinitesimal, mas real se opere na alma.